Com o objetivo auxiliar a comunidade na compreensão do autismo e suas conseqüências, elaborei um breve relato sobre: suas especificidades, as necessidades da pessoa autista (especialmente da criança e do adolescente) e a escola inclusiva.
Embora o objetivo principal tenha foco nas necessidades educacionais (ambiente escolar propriamente dito), não é possível separar as muitas dimensões que o envolvem. Diante disso, separei o assunto por tópicos, a fim de facilitar a leitura e o entendimento.
1. O que é AUTISMO
2. Dinâmica familiar
3. Principais dificuldades de uma pessoa com autismo
4. Escola inclusiva
1. O que é AUTISMO
O Autismo é um transtorno invasivo do desenvolvimento, também denominado TEA (Transtorno do Espectro Autista) e TGD (Transtorno Global do Desenvolvimento), caracterizado por um quadro comportamental peculiar. Sempre envolve áreas de interação social, da linguagem, da comunicação e do comportamento, englobando os aspectos motor, psicológico e cognitivo, em variáveis graus de severidade.
É considerado pela OMS (Organização Mundial de Saúde), como o mais grave distúrbio da comunicação humana.
Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), há atualmente no mundo cerca de 70 milhões de portadores de autismo, sendo dois milhões apenas no Brasil. O Autismo está sendo tratado no mundo todo como um caso grave de saúde pública, com conseqüências sociais e econômicas de grande proporção e relevância. Devido a isso, em 2008 a ONU foi instituiu o dia 02 de abril, como sendo o “Dia Mundial para Conscientização do Autismo”.
Até o momento, não há cura para o autismo. Mas sim, tratamentos para os sintomas. Embora com o tempo possa haver mudanças no quadro autístico (melhora ou piora) o autismo é para toda a vida.
Apesar das diferenças individuais e da evolução dos sintomas no tempo, a tríade comprometimento qualitativo da linguagem, interação social e comportamento imaginativo é comum à quase totalidade dos portadores de autismo. Independente do nível de comprometimento, associado ou não a outros distúrbios e ou patologias.
2. Dinâmica familiar
O Autismo não afeta somente o indivíduo. A doença afeta a família enquanto unidade, com contínuo intercâmbio entre seus membros. É comum observar um nível de stress muito maior nas famílias com membros autistas do que nas famílias com membros com outras deficiências, embora o stress possa ser observado em todas elas.
Isso acontece especialmente porque vivemos em uma sociedade pragmática, na qual os indivíduos são selecionados e classificados segundo critérios de eficiência e competência e pela ausência de políticas públicas que minimizem os efeitos dessas práticas sociais.
Neste aspecto, a família autista dificilmente consegue atender a esses critérios. As limitações do membro deficiente, concomitante com sua dificuldade de exercer seu papel no grupo e com as demandas de seu problema são dificultadores, culminando, quase sempre, na impossibilidade da família em realizar as transformações necessárias para atender aos padrões sociais e economicamente determinados. Assim, comportamentos e atitudes em relação à vida social e profissional passam a ser subordinados quase que exclusivamente à doença, inviabilizando o desenvolvimento saudável de todos os seus membros.
É importante ressaltar que todos esses problemas estão vinculados aos cuidados exigidos pelo membro deficiente e pela ausência de políticas públicas que contemplem o atendimento sistemático desses indivíduos e seus familiares, sobretudo na infância e adolescência. Ex.: diagnóstico, atendimentos adequados nas áreas de saúde, educação e lazer; apoio, orientação e acompanhamento dos familiares para que eles possam se reorganizar psicológica, econômica e afetivamente.
É comum encontrarmos pais estressados, falidos, desequilibrados econômica e psicologicamente; famílias ressentidas, irritadas e fragilizadas enquanto instituição social e afetiva; isolamento e rejeição explicita ou implícita do membro deficiente. São situações e sentimentos comuns em todas as famílias de autistas em maior ou menor grau e duração.
Essas vivências de perdas se repetem ao longo do ciclo vital, dificultando e, às vezes até inviabilizando, a interação familiar e a interação de seus membros com o mundo de forma saudável e satisfatória, comprometendo a dignidade humana de toda a família. Tal fato não ocorre nas famílias funcionais (exceto quando existem outros complicadores sociais).
Lembrando que as famílias de autistas vivem continuamente sintomáticas porque o problema progride em termos de gravidade. Ou seja, à medida que o indivíduo cresce/evolui, mais seus limites se fazem presentes. Daí a necessidade de adaptação constante.
Outra situação muito comum, mas absolutamente injusta, é a culpabilização da mãe (especialmente) pela “má educação” do filho autista. Comumente rotulado de “criança birrenta”, “agressiva”, “impiedosa” “cínica (parecem surdas ou debochadas , tem crises de riso ou riem sem motivo aparente ou em situações inapropriadas)”, “antissocial”, entre outros adjetivos igualmente pejorativos.
Na verdade, esse comportamento é apenas manifestação dos sintomas da psicopatologia e o resultado de vários fatores:
falta de tratamento específico;
abordagens inadequadas;
dificuldades sensoriais;
inabilidade de comunicação e interação;
dificuldade de compreensão do mundo a sua volta, do outro e de si mesmo;
outras dificuldades e limitações inerentes à síndrome.
Tais dificuldades e limitações, embora típicas da síndrome, NÃO são IMUTÁVEIS, nem INSUPERÁVEIS. Podem ser superadas com abordagens adequadas, respeito às dificuldades e limitações da pessoa autista e eliminação de barreiras (especialmente atitudinais), métodos de ensino adaptados, conscientização social a respeito de tais dificuldades e limitações, bem como da forma adequada de amenizá-las e superá-las.
Lembrando que, em hipótese alguma, a pessoa autista pode ser exposta a situações vexatórias, punida, ridicularizada, rejeitada, isolada e/ou execrada socialmente devido a comportamentos e atitudes inapropriados, oriundos das dificuldades e limitações impostas por sua condição autista. Deve sim, ser acolhida, atendida, trabalhada e estimulada a adquirir outros comportamentos, mais aceitáveis socialmente. Isto deve ser feito de maneira adequada e compatível com sua capacidade de compreensão e respeitando o seu tempo e suas limitações.
Do contrário, estaríamos punindo a pessoa autista, por ela ser autista. E exigindo sua adequação a nossos padrões sociais, para só então, permitir sua entrada e permanência em nossa sociedade. A participação na vida social, o respeito às suas limitações e orientações adequadas é o que irá permitir seu desenvolvimento e consequentemente, viabilizar sua plena participação na vida social.
É a sociedade, quem deve se adaptar frente às necessidades da pessoa com deficiência e auxiliá-la na superação de suas dificuldades e limitações e não o contrário.
Essa prática social comum, é outro dificultador da saúde mental dos membros de famílias com entes autistas e atingem principalmente as mães, uma vez que são estas, geralmente, as responsáveis pelos cuidados com o filho e quem sofre as maiores pressões e agressões sociais.
3. Principais dificuldades de uma pessoa com autismo
Entre as muitas dificuldades apresentadas pelas pessoas com autismo, (especialmente crianças e adolescentes) podemos destacar:
1. A inabilidade para compreender o abstrato (sem o apoio e contextualização do concreto);
2. A limitada capacidade de elaboração;
3. A resistência a mudanças na rotina;
4. As reações (às vezes agressivas) a estímulos sensoriais: sons, cheiros, texturas, cores, luz, toque, estimulação visual e auditiva (sons e ruídos altos, excesso de informação visual),entre outros;
5. A ansiedade (necessidade da previsibilidade, antecipação e organização);
6. Inabilidade para estabelecer relações sociais sem o apoio, incentivo e/ou mediação do outro;
7. Dificuldades psicomotoras (especialmente com a coordenação motora fina, noção espacial e temporal);
8. Distúrbios do sono;
9. Inabilidade da comunicação (lembrando que comunicação se difere da linguagem, muitos autistas desenvolvem a linguagem, mas mantém limitada - às vezes quase ausente - a habilidade de comunicação);
10. Incompreensão da morte, como fenômeno universal, irreversível e não funcional.
4. Escola Inclusiva
A proposta da educação inclusiva surgiu no cenário mundial a partir dos anos 90 . Desde então, surgiram leis e convenções internacionais, objetivando acabar com a rejeição que era imposta às pessoas com deficiência, em relação à frequência em escola regular e participação ativa na vida social.
Muitos estudos e esforços, tem sido feitos com o objetivo de construir uma escola inclusiva, que respeite as diferenças e promova o desenvolvimento global de todos os seus atores. Entretanto, a inclusão da pessoa com autismo e deficiência mental, tem se apresentado como um dos maiores desafios, dada as especificidades, dificuldades e limitações (especialmente do ponto de vista comportamental) desses dois grupos. Mas, apesar de desafiador, a inclusão (e permanência) dessas pessoas na escola regular, com participação plena, é possível e necessária.
Pensar em inclusão de pessoas com deficiência, de modo geral, implica também em promover mudanças, a fim de tornar acessível a esse grupo os saberes e vivências que outrora lhes foram negados. Em se tratando de pessoas com autismo, isso implica em mudança não só de postura, mas também de adaptação de currículo, de estrutura e organização do trabalho pedagógico, bem com de adequação do tempo e do espaço escolar.
É importante salientar que, para se educar um autista, é preciso também promover sua integração social. Neste aspecto, a escola é, sem dúvidas, o primeiro passo para que aconteça esta integração, sendo possível por meio dela à aquisição de conceitos importantes para o curso da vida.
Devido às dificuldades com a mudança de rotinas, bem como as muitas outras dificuldades adaptativas da pessoa com autismo, não é conveniente mudanças constantes de situações e ambientes educacionais. Isso acarreta grande desequilíbrio na pessoa autista, seguida quase sempre de danos irreversíveis e prejuízos irreparáveis (nos aspectos psicológico, social e acadêmico), atingindo o autista em duas de suas maiores dificuldades: a adaptação ao novo e a interação social.
A pessoa com autismo, embora quase nunca expresse, tem sentimentos, ela sente. E sente muito, principalmente por causa de sua excelente memória. Há portanto, uma enorme diferença entre NÃO SENTIR e NÃO SABER expressar sentimentos, como é o caso dos indivíduos autistas. Isso coloca esses sujeitos em uma situação de extrema vulnerabilidade, em todos os aspectos, necessitando de atenção especial todas as situações que os envolvam, direta ou indiretamente.
Belo Horizonte, 01 de Outubro de 2011
Maria do Carmo de Oliveira Brandão
Pedagoga; Mãe de adolescente autista; Membro e voluntária da AMA-MG (Associação dos Amigos do Autista de Minas Gerais)